A Igreja Católica São José Operário inserida na luta da Vila Autódromo

Por Luiz Claudio da Silva

A Igreja Católica São José Operário foi fundada no final da década de 80 pelo pároco Padre Carlos Alberto Nascimento. Conhecido carinhosamente por Padre Carlinhos, era atuante na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, no bairro de Curicica, em Jacarepaguá (Zona Oeste do Rio de Janeiro). Essa paróquia foi a responsável pela evangelização na Vila Autódromo.

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Por estar inserida em uma comunidade que foi ameaçada de remoção por mais de duas décadas, a capela tem uma história muito diferente das demais. Como a maioria, porém, começou com muita dificuldade e sem uma estrutura física básica. Apesar disso, desde sua fundação, já atendia a comunidade em atos religiosos como missas, catecismo, casamentos e batizados.

Ao longo dos primeiros 15 anos de fundação, devido às dificuldades estruturais, a Santa Missa e outras atividades também aconteciam alternadamente em casas de famílias católicas da comunidade, que acabavam representando a extensão da capela. O grande ponto positivo dos encontros nas casas, além da união social e descontração que proporcionavam, era o acolhimento de membros familiares que não costumavam participar das práticas promovidas diretamente na igreja. Muitos dos encontros acabavam resultando em convites para almoços, churrascos, passeios e refletiam em um relacionamento mais sólido entre os moradores.

10 de novembro de 2013 - Missa com dom Orani tempesta

Na trajetória de luta da Vila Autódromo, a igreja foi usada como apoio contra as ameaças de remoções dentro da comunidade. Esses acontecimentos aproximaram várias personalidades da Igreja Católica, que visitaram o local e celebraram missas: no dia 17 de setembro de 2006, o arcebispo do Rio de Janeiro Dom Euzébio Oscar Cheid; e, por duas vezes, em 10 de novembro 2013 e 02 de janeiro 2016, o arcebispo Dom Orani João Tempesta.

A CAPELA INSERIDA NA LUTA DA VILA AUTÓDROMO

Como a Associação de Moradores da Vila Autódromo não tinha capacidade física para receber reuniões com mais de 50 pessoas, a Igreja São José Operário sempre abriu as portas para inúmeras assembleias. Muitas decisões importantes – conduzidas pela defensoria pública, apoiadores e com os próprios moradores -, como atos e ações internas e externas, foram resolvidas no espaço da capela.

A comunidade resistiu às ameaças de remoções ao longo dos 3 mandatos do prefeito Cesar Maia. O momento mais tenso deste período aconteceu durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. Uma das investidas da Prefeitura do Rio de Janeiro foi mandar a Guarda Municipal, por duas vezes, para derrubar a obra do templo da igreja, que se encontrava em andamento. Após esse episódio, o arcebispo Dom Euzébio Oscar Sheid celebrou a “Santa Missa dos Excluídos”, no dia 17 de setembro de 2006, com a participação de aproximadamente 600 pessoas. Estavam presentes barracas de todos os movimentos sociais da Zona Oeste, que já reivindicavam condições de moradia digna.

QUASE UMA TRAGÉDIA NA IGREJA

Em fevereiro de 2014, diante do início da negociação de algumas famílias para a saída de suas casas antes dos Jogos Olímpicos de 2016, surge uma liminar que impedia a Prefeitura de realizar a demolição das casas mesmo após a mudança dos moradores, já que a ação deixaria um cenário de entulhos abandonados e, consequentemente, inviabilizaria a permanência de quem continuasse na comunidade.

Como resultado da liminar, o então prefeito Eduardo Paes – que já tinha prometido apartamentos para mais de 100 famílias e fez com que essas descaracterizassem suas casas – se negou a entregar as chaves aos moradores, que já acreditavam estar com tudo garantido, alegando que eles deveriam convencer a Associação de Moradores a retirar a liminar para que a demolição pudesse ser concluída.

No mesmo dia, moradores revoltados se direcionaram à Associação armados com paus, ferros e pedras, e quebrando vidraças. Logo em seguida, foram em direção à assembleia lotada, que acontecia dentro da igreja e com a presença da defensoria pública, moradores e apoiadores. O pior só foi evitado com o auxílio e intervenção do padre Fábio Guimarães, que com muita habilidade conseguiu conduzir a situação de forma que todos acalmassem e entendessem que a atitude do prefeito era somente uma estratégia para criar desavenças na comunidade.

EM MEIO AOS ESCOMBROS, A “TÉCNICA DO AFRESCO”

Em 2015, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizava o curso “A arte e a técnica do Afresco”, sob a coordenação do mestre Lydio Bandeira de Mello. Os alunos eram responsáveis por escolher o local de prática para a conclusão do aprendizado e, entre eles, estava o artista Renato Alvim, que escolheu a Igreja de São José Operário, mesmo cercada por destroços, para produzir seu trabalho.

No início do projeto, em março de 2015, a coordenação do curso teve dúvidas sobre a locação selecionada por Alvim, tendo em vista o cenário da época. Felizmente, a decisão final foi de que a obra pudesse ser realizada. O marco deste período é que, simbolicamente, a cada pincelada do artista, uma nova casa era demolida – isto deu ainda mais força à arte, pois em um território que estava sendo devastado, enfim surgiu uma luz que deu ânimo aos moradores para continuar lutando pelo direito ao território. A obra foi concluída em novembro de 2015.

A PREFEITURA CORTA A ÁGUA DA IGREJA

Mesmo concentrada na luta, a comunidade não parou as atividades religiosas, especialmente aos domingos. Porém, aproveitando o esvaziamento da rua José Carlos Pace, a Prefeitura corta também a água da igreja, que só é religada após muita pressão para que os chefes responsáveis da obra se conscientizassem sobre a importância do espaço.

ENCONTRO ECUMÊNICO EM COPACABANA

Em seu território original, antes das Olimpíadas, a Vila Autódromo contava também com 11 Igrejas Protestantes e 5 Centros Espíritas, que acabaram sofrendo com a divisão e desarticulação promovidas pela Prefeitura.

Por ter acompanhado e apoiado a luta das famílias, o pároco da Igreja São José Operário, padre Fábio Guimarães, tentou reunir todas as instituições religiosas da comunidade para um encontro ecumênico em Copacabana, com o objetivo de chamar a atenção da sociedade para o que estava acontecendo naquele momento.

No 14 de junho de 2015, porém, a celebração só aconteceu com os membros da Igreja Católica e alguns apoiadores, além da presença da Tropa de Choque, enviada pela Prefeitura para acompanhar o manifesto. Apesar disso, o encontro se manteve como um ato pacífico de caminhada pela orla da praia, com faixas e informativos, finalizando com a Missa na esquina entre as ruas Avenida Atlântica e Figueiredo Magalhães.

UMA URBANIZAÇÃO SEM PROJETO

Na reta final da resistência da comunidade da Vila Autódromo, várias reuniões sobre urbanização, com os principais técnicos de obra da Prefeitura, também aconteceram no espaço da igreja. Uma das reuniões, inclusive, com ameaça dos moradores de parar a obra da urbanização das casas, caso o projeto não fossem apresentado oficialmente – o que gerou diversos desdobramentos e a necessidade de inúmeras reuniões posteriores, dificultadas pelo descaso do poder público.

A IGREJA CUMPRINDO SEU PAPEL SOCIAL

Mesmo no período mais crítico das remoções, a comunidade continuava recebendo muitas visitas e abrindo as portas a grandes grupos, o que manteve a capela como um grande símbolo da luta e da resistência. Após a demolição da Associação de Moradores, no dia 24 de fevereiro de 2016, foi ainda mais importante o uso do espaço da Igreja São José Operário.

Móveis da família da Penha e da associação. fev e março de 2016 (6)

São alguns registros de acontecimentos que começaram a partir de 2012 e seguem fazendo parte da história da Vila Autódromo:

  • Cúpula dos Povos no Encontro Internacional RIO+20 (junho de 2012), com o tema “Ecologia e Sustentabilidade do Planeta”. A comunidade acolheu quase 5mil pessoas de todo o Brasil, com vários dos visitantes dormindo na capela;
  • Guarda de móveis da Associação de Moradores, após a demolição do espaço em 2014;
  • Acolhida, em diferentes momentos que foram necessários, de famílias desapropriadas e seus pertences, comprometendo o espaço físico da igreja e exigindo que as atividades dos sacerdócios responsáveis e participantes fossem campais;
  • Eventos sociais, seminários e oficinas, como: FLUP – Feira Literária da Periferia (2016), II URB Favelas (2016), Curso de Museologia Social da REMUS (2017), entre outros;
  • Reuniões, tanto para decisão de pendências sobre a urbanização quanto para início e continuidade das ações do Museu das Remoções.
*Os fatos aqui relatados sobre a história da capela durante o processo das remoções não estão sendo contados em sua totalidade – são apenas alguns fatos marcantes que merecem destaque.

Acreditamos que, quando uma instituição é criada com o objetivo de ajudar ao próximo, seja ela Igreja Católica ou não, essa meta deve ser atingida de forma completa – papel que a Igreja São José Operário cumpriu em âmbito religioso e social.

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